Bora de faixa a faixa?
Homens Machucados - Luís Capucho
Chamem-no de maldito ou marginal, o fato é que Luís Capucho tem uma das poesias – e prosas – contemporâneas mais originais, assim como sua musicalidade. Sua produção pode até não ganhar a ribalta das redes e os holofotes dos leads, mas ela segue constante. O músico, compositor e escritor lançou o disco que mais me tocou até agora nesse início de 2026: Homens Machucados, seu 7º álbum, resultado de um processo alquímico perfeito.
Ele começa com um vocalize transcendente, intitulado Vocalize, inclusive, no qual ele é acompanhado por uma banda que não fica atrás, mas chega junto ao canto dele; em vez de ser pano de fundo, faz o brilho acontecer em consonância. Dá pra sentir, tal qual no azul-noite da foto da capa, algo mais íntimo emergindo.
Depois, vem Camuflagem, que não tem como dizer que é uma típica composição “capuchiana” porque todas são – até as que não são dele, algo raro em sua discografia. Essa tem letra de Tive Martinez. Na era das trends, dancinhas e refrões chatos ou cafonas, que se pretendem incrivelmente pops, é um bálsamo ouvir Capucho e seu jorro imaginativo, com andamentos às vezes tão previsíveis quanto fortuitos.
Como nas demais faixas, a letra é tanto canção quanto poema. O exercício da descrição do fenômeno da natureza nasce de uma experiência concreta; de um encantamento que brota da sensibilidade que permeia um universo absolutamente próprio. Melancolia e descoberta dançam juntas sobre a mesa da sinceridade.
Cinema Orly é a música homônima a seu primeiro romance, que agora volta às prateleiras em relançamento de luxo pela editora Carambaia, parte da coleção Sete Chaves, dedicada à literatura erótica. O romance autobiográfico, assim como a canção, descreve o interior do cinema pornô do centro do Rio de Janeiro.
“O cinema havia desenvolvido suas próprias regras [...] No seu subterrâneo, dentro de sua bolha, fazíamos parte de outro mundo, cuja higiene, noção ética, amplitude, atmosfera, gravidade, cor, movimento e abordagem social eram parte de um mundo diferente do mundo lá fora.”
A paisagem e a experiência, bem como o erótico, compõem o imaginário da criação de Capucho. Tanto que, como nota Bruno Cosentino, o disco Cinema Íris, de 2012, é uma espécie de obra-irmã do Cinema Orly.
Não me recordo com precisão se Homens machucados já havia sido gravada ou se tenho uma lembrança dela de shows (que há muito não vejo) dele. E, como na maioria das faixas, sentir o que Capucho canta é muito mais efetivo do que tentar interpretar suas palavras – enquanto a banda segue sem atropelá-lo em seu canto torto.
Eu era um menino quando homens machucados
Eram mais bonitos pra mim
Um homem machucado de tudo perfeito
O peito ferido, belezas escorrendo
Dos olhos dele, do corpo dele
No pescoço, pelos flancos, no seu centro
Já Inferno tem a simplicidade complexa da boa poesia e o acompanhamento traz aquela guitarra seca que, por algum motivo, tendemos a associar ao ambiente quente e fumegante da figura do coisa-ruim da nossa imaginação.
O pesquisador e professor Rafael Julião, ao comentar o álbum, chama Capucho de “barroco queer” e brinca com a ideia de um “Evangelho segundo Capucho”. A alusão a Cristo em Homens Machucados ajuda a compor esse cenário, mas em relação a Inferno é interessante notar como há uma brincadeira que subverte a relação exagerada e simbólica entre ambos quando a palavra “rabo” é que vai costurando o inferno em suas diferentes formas e significados. A letra aqui é de um antigo parceiro do compositor, Marcos Sacramento (com quem ele fez, também, Homens Flores, uma canção deslumbrante)
Posso até estar enganada, mas Tava na noite tem um quê daquela fórmula que adapta o rockabilly para a jovem guarda ou para o rock gaúcho da virada da década, mas em andamento bem mais atrasado. Tem uma típica batida de mão nas cordas do violão, própria para as infames rodinhas, que quase sempre são acompanhadas por um cajón. Mas, até então, é tudo imaginação minha – por me faltar os requisitos técnicos para descrever de maneira mais fiel algo tão banal na canção.
O fato é que qualquer violeiro que se atreva a fazer uma interpretação da faixa teria que ter também atributos cênicos para encarnar o personagem principal. Tava na noite é prosa em movimento. É uma narrativa que se desenrola enquanto se vê o cenário e mergulha-se no profundo do eu narrador.
A faixa seguinte traz um contraste musical e sonoro. A masculinidade tem poesia contida e direta, desprovida de versos ornamentados, que se desenvolvem a partir da fórmula “A masculinidade é…”. Eles são acompanhados por um dedilhado melancólico, alto e bonito.
É estranho ouvir os adjetivos que a letra, de autoria de Kali C, vai atribuindo à masculinidade. Desconstrução e consciência sobre um tema em que vemos mais se falar mal do que bem. E não podia ser outra voz para dar coerência a tal formulação, de que a masculinidade é doce, bela, gentil, forte etc., senão a de Capucho.
Eu não te quero mais é cortante, muito mais, claro, do que “os barbeadores embolados nas gavetas”. É uma das músicas mais bonitas do álbum (e qual não é?). Em publicação no Instagram, Capucho postou uma arte para um dos versos que resume o sentimento principal que é desenvolvido: “você não tem mais importância / no meio das coisas velhas”. Eu, pessoalmente, amei ver aparecer de novo nas canções bichos como ratos e baratas associados ao amor (vencido). Uma vibe meio “eu quero arranhar os seus discos”.
O amanhecer do Alexandre é a última faixa e a última parceria. Junto com a primeira, formam as músicas mais longas do álbum. A letra é de Alexandre Magno, mas foi na repetição quase infinita de Capucho cantando “nã nã nã nã nã” que eu entrei em transe profundo, apesar da lindeza da imagem da “cor alva do cavalo de Ogum”.
Homens machucados é um disco bem acabado, em que a aspereza sonora própria da musicalidade de Capucho vem amenizada. A capa, que mencionei pela cor, é uma foto deslumbrante do compositor. E a banda: Mari Romano (que tá prestes a lançar álbum novo, Vitor Wurtzki e Hudson Rabelo. Tudo isso amarrado pela produção de Clemente Francesco (ou, para os íntimos, Bruno Cosentino, meu ídolo).


