Isto dando samba
Novo álbum de Marco Scarassatti desmonta o samba entre improviso, ritual e eletrônica em território ancestral coletivo
Um samba nunca conta uma história sozinho. Quando um acorde, um verso, uma batida ou um balbucio são jogados no ar na intenção de fazê-lo, se expandem círculos de história sobre pilares de ritmos, camadas técnicas e ornamentos culturais os mais diversos. Também por isso, ele nunca se esgota. E é um pouco disso que Isto Dando Samba, novo álbum de Marco Scarassatti, demonstra.
Scarassatti é um compositor contemporâneo cuja produção é voltada à música experimental em abordagem ampla: improvisação, construção de instrumentos e esculturas sonoras, field recording, dentre outras. Diante de sua longa trajetória na música experimental, da pesquisa extensa sobre Walter Smetak e da imersão no candomblé, não surpreende que Scarassatti chegue agora a um disco de samba.
O samba de Scarassatti já começa esperto pelo título, que ecoa foneticamente o clássico Estudando o Samba, de Tom Zé. A associação, porém, vai além do trocadilho: ambos são herdeiros da escola de invenção que Walter Smetak ajudou a consolidar na Bahia a partir dos anos 1960, e os paralelos entre suas ideias composicionais aparecem também nos processos criativos.
Se Tom Zé, em 1974, construiu Estudando o Samba a partir do contraponto e da sobreposição de fragmentos, Scarassatti também trabalha por provocação e montagem. O compositor enviou uma áudio-partitura para que diferentes colaboradores a interpretassem livremente. Depois, reorganizou o material em sua própria linha de montagem, aproximando peças por similaridade e combinação. Há alguma analogia nos processos.
A tal áudio-partitura disparadora do conjunto que iria se formar é também o tal centro gravitacional da composição que poderia chamarmos de isto, a matéria-prima sonora da qual a mixagem tomará conta. A música nasce na intermitência entre a materialidade e o intangível: de um lado, a fricção entre corpo e instrumento; de outro, a fugacidade da onda sonora em suas mais distintas e complexas propriedades.
Por fim o dando, para saírmos dessa eterna introdução, e sem passar pela quinta série ao focar nesse verbo, no gerúndio, dá ideia de continuidade. O samba segue podendo ser interpretado e perpetuado em diversas formas, caminhos e abordagens. Esta, que vem disto é mais uma. Assim como estava curiosa para saber como Ajítenà Marco Sacarassatti conseguiria transportar a obra para ao vivo - o que aconteceu, no último dia 27 de maio, em São Paulo.
Isto Dando Samba foi lançado em abril e tem, ao todo, 50 minutos, que se dividem de maneira mais ou menos igual em 6 peças. A primeira traz, logo de início, a voz limpa e ancestral de Juçara Marçal. Dos instrumentos, destacam-se a cuíca de Paulinho Bicolor e o som do próprio instrumento-chave de Scarassatti, o pássaro cocho moldado em uma cabaça. E também, de cara, uma surpresa: Marcos Campello assume o trompete e o pandeiro. Guitarrista de destaque, ele também vai assumir adiante o bandolim.
Já na segunda faixa, é o violão com caixinha de fósforo de Gustavo Infante que introduz o universo que iremos adentrar. Por ser um virtuose do violão e tocá-lo de uma maneira complexa e límpida, tal como bom discípulo e conhecedor de Caymmi, dá até para imaginar que a dupla violão e caixinha de fósforo que o músico utiliza poderiam ter sido tocados separadamente. Mas, no show ao vivo, pude ver que não, a caixinha está ali acoplada a um das cordas e ele vai tecendo o som de ambos ao mesmo tempo, com espécies de scratches na corda que, logo adiante, vão se combinar com as manipulações eletrônicas que dão um tom talvez futurista esse samba. E para acompanhar tudo isso, as rimas espertas de Matéria Prima.
Espertas não só pela malandragem dos versos, mas pelo tom que o rapper imprime em sua voz. Em algum momento do disco, posso enxergar Marco Scarassatti passeando pelos terreiros das bordas da cidade de Belo Horizonte, ouvindo e processando os sambas e compassos que eles produzem e reproduzem, por exemplo, no carnaval. O desenho imaginário desse território, que é invocado pela sonoridade criada no álbum, é como um risco riscado - tracejado de aventura; ritual e improviso.
Certamente que Isto Dando Samba é uma construção que parte de um lugar não enraizado, fincado na oralidade e que multiplica as encruzilhadas no caminho. A voz impressa de Negro Leo fica no limiar da construção para o fonograma não-cancional que se desenha. Enquanto a participação de Rossano com surdo e atabaque retomam a profundidade do ritmo e seu aspecto mais grave.
No lado A, as três primeiras peças e seus processos de desvelamento do samba em mínimas partes me lembraram ainda outras obras que buscaram o mesmo intento. Até pelo nome, me veio à cabeça Isso vai dar repercussão, de Itamar Assumpção e Naná Vasconcelos — um fazendo miséria na melodia, o outro no ritmo. Além de uma das últimas jogadas de mestre de Jards Macalé (e qual não foi, né?) junto ao Sérgio Krakowski trio ao reler Zé Keti.
Já no lado B, Juçara mumunha com a voz como se contasse uma nova história, mas também desenhando um novo campo. O que vem limpo como um mar sem revoltas é o dedilhado do violão, entrecortado por pequenas correntes do cavaquinho que evoca o Brasileirinho. E a um certo ponto, a gente se pergunta, isto o que? O hino. E da nação se faz um ebó.
É como se pudéssemos ainda pensar que, ao fim e ao cabo, o século XXI ainda tem mentes-criantes que jogam (ou debocham?) daquela velha guerra nacional popular à qual, de tempos em tempos, tenta-se criar em torno do samba - e que o próprio Tom Zé, com seu “estudo”, subverteu em tempos de chumbo e o relegou a uma outra estante da música popular brasileira.
Mas ora, o experimental também é popular, pop e político. E, como diz o meme que Ewerton Belico me mandou, “mas vocês só falam de política? sim, se quiser falar de amor, fale com o Marcinho”. E então, Marco Scarassatti inscreve mais uma obra, talvez uma das mais relevantes de seu catálogo, para que as presentes e futuras gerações se debrucem.
Ao todo, 16 músicos participaram da construção do álbum: Juçara Marçal, Inês Terra, Negro Leo, Matéria Prima, Mbé, Flavia Goa, Felipe José, Gustavo Infante, Dudu Pinheiro, Jonatah Cardoso, Marcos Campello, Antônio Beirão, Marcos Alves, Rossano, Paulinho Bicolor e Yuri Vellasco. Além de João Viana na mix e Nelson Pinton na master.




